Em apenas alguns anos, os serviços digitais mudaram profundamente de natureza. O que cabia em algumas linhas de código e alguns megabytes mobiliza hoje infraestruturas inteiras, centros de dados com elevado consumo energético e larguras de banda saturadas. Aplicações cada vez mais ricas, fluxos de dados em tempo real, conteúdos multimédia omnipresentes, ferramentas colaborativas multiplicadas…

O digital está a crescer. E este crescimento não é sem consequências — nem para o desempenho das suas plataformas, nem para a pegada ambiental da sua organização.

Números que fazem pensar

O sector digital representa hoje cerca de 4% das emissões mundiais de gases com efeito de estufa — mais do que a aviação civil — e esta percentagem está em crescimento constante. Nas empresas, as TI concentram uma parte significativa desta pegada: servidores, postos de trabalho, redes, aplicações, armazenamento…

Mas para além dos números globais, é a dinâmica subjacente que deve alertar os responsáveis de TI. O consumo digital das organizações não cresce de forma linear. Está a acelerar, impulsionado por vários fenómenos convergentes.

Os motores desta inflação digital

A explosão dos dados

As empresas geram e recolhem volumes exponenciais de dados. Logs aplicacionais, dados de negócio, históricos de clientes, fluxos IoT… Cada interação produz dados. E cada dado armazenado, replicado e guardado consome energia — muitas vezes muito além do seu valor real para a organização.

Interfaces cada vez mais pesadas

As aplicações modernas são mais pesadas do que alguma vez foram. Frameworks JavaScript volumosos, assets multimédia não optimizados, pedidos de rede multiplicados… O que o utilizador percebe como uma experiência fluida assenta muitas vezes em dezenas de recursos carregados em paralelo, a partir de servidores por vezes localizados do outro lado do mundo.

A multiplicação das ferramentas colaborativas

A generalização do trabalho híbrido conduziu a uma proliferação de ferramentas: mensagens, videoconferência, gestão de projectos, partilha de ficheiros… Cada ferramenta gera os seus próprios fluxos, as suas próprias notificações, as suas próprias sincronizações em segundo plano. A pegada individual de cada colaborador aumentou consideravelmente.

Streaming e vídeo nas empresas

O vídeo tornou-se o formato dominante — tanto internamente como externamente. Formações online, reuniões gravadas, conteúdos de marketing… O vídeo representa hoje a maioria do tráfego mundial de internet, e o seu consumo energético é proporcionalmente elevado.

As consequências concretas para a sua organização

Esta inflação digital produz efeitos tangíveis que os CIO já não podem ignorar.

No desempenho das plataformas. Aplicações sobrecarregadas, bases de dados mal dimensionadas, infraestruturas sub-optimizadas: o peso crescente do digital traduz-se directamente em tempos de resposta degradados, incidentes recorrentes e dívida técnica acumulada.

Nos custos de infraestrutura. Armazenar mais, processar mais, transmitir mais — tudo isto tem um custo. As facturas de cloud disparam quando o consumo de recursos não é gerido activamente. A sobriedade digital torna-se então uma alavanca de optimização económica tanto quanto ambiental.

Na conformidade e nas obrigações regulamentares. A directiva europeia CSRD impõe agora a um número crescente de empresas a medição e reporte da sua pegada ambiental — incluindo a digital. As TI já não são apenas um centro de custos: são um perímetro de responsabilidade ESG por direito próprio.

Rumo a uma abordagem de sobriedade digital

Face a estes desafios, a sobriedade digital não consiste em reduzir os usos ou travar a inovação. Consiste em consumir melhor — em alinhar o consumo de recursos digitais com o valor efectivamente produzido.

Algumas alavancas concretas para os responsáveis de TI:

Auditar e racionalizar o portefólio aplicacional. Quantas aplicações são efectivamente utilizadas na sua organização? Quantas licenças inactivas, duplicações funcionais e ferramentas obsoletas continuam a funcionar em segundo plano? Uma auditoria regular do portefólio aplicacional é o primeiro passo de uma abordagem de sobriedade.

Optimizar o armazenamento e a gestão dos dados. Nem todos os dados merecem ser conservados indefinidamente. Uma política de ciclo de vida dos dados — arquivo, eliminação, tiering — permite reduzir significativamente a pegada das infraestruturas de armazenamento.

Medir para gerir. Não se pode reduzir o que não se mede. As ferramentas de monitorização permitem hoje quantificar o consumo energético das suas infraestruturas e identificar os componentes mais energeticamente intensivos.

Conclusã

O digital não vai tornar-se mais leve por si só. A tendência estrutural aponta para uma complexidade crescente, usos intensificados e dados multiplicados. O que pode mudar é a forma como as organizações decidem geri-lo.

Para os CIO, a sobriedade digital é uma oportunidade: a de recuperar o controlo sobre consumos muitas vezes invisíveis, optimizar custos demasiado tempo suportados, e posicionar as TI como um actor responsável na estratégia ambiental da empresa.

Consentimento